Fortalecendo Conexões: praticando a Comunicação Não-Violenta
Por Fabiana Maia
“Olho por
olho...e todos terminaremos cegos”
Mahatma Gandhi
A Comunicação
Não-Violenta (CNV) não é uma teoria, um método, uma técnica, nem uma ferramenta
de comunicação, muito menos uma doutrina. Talvez esteja mais próxima de uma
abordagem ou plataforma de aprendizado (mais emocional que mental) que nos
guia para fortalecermos nossas conexões com as pessoas, construindo um
ambiente mais propício para experimentarmos a paz.
O "pai" da CNV é
o psicólogo americano Marshall Rosenberg acompanhado de uma equipe
internacional de colegas, que apoia o estabelecimento de relações de parceria e
cooperação para que povos e indivíduos em conflito dialoguem de maneira
eficaz e sustentável. No Brasil, quem pode ser considerado a referência em
CNV é o pesquisador social Dominic Barter (inglês radicado no Rio de Janeiro).
A CNV enfatiza a importância de
determinar ações com base em valores comuns, enxerga uma continuidade
entre as esferas pessoal, interpessoal e social, e providencia formas práticas
de intervir.
A aplicação da CNV se dá em todos os
campos, em todas as relações e interações em que se pressupõe que haverá
diferenças e conflitos. Como passamos a maior parte de nosso dia e de nossas
vidas trabalhando, é no contexto das relações profissionais que acabamos
vivendo grande parte de nossos conflitos. E como meu foco de trabalho é o
desenvolvimento de lideranças e o fortalecimento das relações nas equipes, encontrei
no estudo da CNV uma plataforma simples, ainda que profunda, para alavancar a competência relacional para um patamar de
qualidade única de conexões.
Cada vez mais, líderes e profissionais
focam seu aprimoramento na educação emocional para criar um campo de relações
mais produtivas. Por consequência, quem aprende, exercita, e aplica a CNV,
melhora a qualidade de suas relações, desenvolve resiliência e abertura na vida
e no trabalho, e acessa o poder de cocriar o mundo, percebendo o fio condutor
que conecta nossa vida ao outro e ao resto do mundo.
Há quatro elementos-chave que
estruturam a CNV: observar sem julgar, identificar e expressar as necessidades
(do outro e minhas), nomear os sentimentos envolvidos (do outro e meus) e
formular pedidos claros e possíveis. Um quinto elemento vem coroar o processo
que é a autoempatia e a expressão de empatia pelo outro.
Muitos de nós nos encontramos
aprisionados em crenças que reproduzem um moralismo simplista de comportamentos
certos e errados, onde há vítimas e vilões. Temos o vício de adotar o atalho de
julgar e criticar, achando que assim convenceremos o outro de que temos a
razão. E assim nos afastamos das pessoas, esquecidos da ética viva dos valores
e necessidades universais– um dos pilares centrais da CNV.
Chamo esse trabalho de educação
emocional, pois há um “treino” necessário já que parecemos tão distantes de
“escutar” e poder expressar nossas necessidades, e ainda tão longe de nos
conectarmos com aquelas de nossos interlocutores. Dessa forma, sentimentos de
medo, raiva e tristeza imperam nas relações. Fugimos dos conflitos, ou queremos
acabar logo com eles, por profunda incompetência relacional. Transcendemos esse
padrão quando aprendemos a apreciar o
conflito como uma manifestação de que há vida querendo ser renovada nas
relações.
A violência, presente no nome dessa
abordagem, remete a algo mais sutil do que se costuma pensar. Não escutar com
empatia o outro pode ser violento, interromper enquanto o outro fala também.
Não valorizar suas necessidades e ceder para o desejo do grupo, pode também ser
uma autoviolentação, mesmo que a forma de se comunicar seja doce. Não se trata
da violência que se lê nos jornais, mas sim da ausência (ou carência) de
apreciação e gratidão que presenciamos na atmosfera empresarial (assim como na
familiar e outras).
A CNV abala os alicerces que vem
sustentando (ainda que sem sustentabilidade) há milênios nossa civilização. A
lógica de punição existente em quase todos os sistemas sociais, e visível nos
ambientes organizacionais, é colocada em cheque. O pressuposto que se eu punir
alguém que cometeu um erro ou violou uma regra, estarei assim ensinando a ele
(e ao grupo) uma lição que vai levá-lo a corrigir o seu comportamento, vem se
mostrando ineficiente, já que a corrupção corporativa, a depressão, o
absenteísmo, a queda de engajamento e o estresse só parecem aumentar.
A CNV mudou a minha forma de ver e
estruturar o feedback que chamamos de redirecionamento (o que outros chamam de
“negativo”). Quantas vezes a pessoa que recebe esse feedback sai da sala como
se tivesse ficado de recuperação na escola, com a sensação de que está errada e
o “chefe” está certo. E o “chefe” se enche da ilusão de que deu um feedback
claro e que deve produzir o efeito que ele deseja. Se em alguns meses não há a
mudança esperada, está comprovado que o subordinado é um incompetente mesmo.
Será?
Se, como líder, fortaleço a conexão
entre meus subordinados, clientes, pares e chefes, posso cocriar com eles as
bases para mudanças consistentes e sustentáveis. Mesmo que um desligamento ou
uma ruptura contratual ocorra no final desse processo, a qualidade da relação,
pelo fato de a pessoa ter sentido que tinha escolhas e que suas necessidades
foram ouvidas, irá sustentar a confiança e a gratidão, mesmo depois da saída.
A empatia é uma chave importante nesse
processo. Ao esvaziar a mente de julgamentos e OUVIR com toda presença, atenção
e abertura, para poder reconhecer as necessidades e sentimentos do outro, surge
a empatia. Não é preciso concordar, nem discordar quando o objetivo é
fortalecer a conexão.
As estruturas corporativas estão
organizadas de forma a produzir uma dinâmica que não promove a parceria e a
eficiência de comunicação. Vemos que as possibilidades, e aqui estamos falando
de escolhas, foram tiradas dos indivíduos, pela valorização de uma visão de
liderança que precisa orientar, comandar, controlar. No corre-corre
empresarial, há uma carência latente de tempo para fortalecer as conexões,
identificar o que cada pessoa está fazendo, qual a sua função, quais os
contratos grupais, etc.. O foco no resultado vem matando o foco no processo, e
essa discussão parece tocar na raiz da era de transformações que estamos
vivendo -- querendo ou não.
A CNV acaba servindo para que a
autoresponsabilização pelas escolhas e suas consequências seja experimentada em
sua plenitude. Como humanidade, assumimos a responsabilidade pelas atitudes de
exploração dos recursos naturais que nos últimos séculos levou nosso planeta à
situação de desequilíbrio que hoje se encontra.
Ainda que o vitimismo tenha se
enraizado há milênios, especialmente na cultura ocidental, urge a necessidade
de cada indivíduo assumir o papel de protagonista da cena de sua vida e se
responsabilizar pelas consequências de suas escolhas.
A CNV vem apoiando pessoas, grupos,
escolas, instituições governamentais, empresas, ONGs e nações do mundo inteiro
a cocriarem uma realidade que vai além dos padrões condicionados, para uma
possibilidade de experimentarmos relações produtivas, saudáveis, pacíficas,
felizes e sustentáveis. Isso não quer dizer um estado de harmonia perene com
ausência de conflitos e desentendimentos. Apenas estaremos mais
instrumentalizados e maduros (emocionalmente) para lidar com eles, quando
surgirem.
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Por Fabiana Maia
fabimaia@luminous.net.br
Há alguns milhares de
anos surgiu o Homo-Sapiens. Dominou o planeta ao sair de sua frágil condição
física e assumiu o topo do ranking da cadeia alimentar com seu poder mental.
Aqueles que eram mais inteligentes, dotados de maior capacidade analítica,
estratégica e avaliativa, mais dominavam outros reinos (o vegetal e o mineral),
outras espécies e mesmo outros “homens-sabidos”. E aqui estamos nós:
dominadores ameaçados no oceano dos conflitos. Conflitos com familiares, com
vizinhos, colegas de trabalho, com sistemas sociais inteiros e conflitos
conosco mesmos. A sapiência que desenvolvemos parece não nos servir muito para
irmos além deste pântano escuro.
Em meados do século
passado uma série de pesquisadores começou a falar de outras inteligências,
como a emocional, a relacional, a espiritual e a social. Um espaço se abriu
para fortalecermos uma musculatura até então atrofiada: a conexão empática,
possível somente quando se está disponível para uma experiência de transcender
o hábito de ter razão em todas as discussões, conversas, debates e reuniões. De
repente, ter razão e ser o vencedor daquela disputa racional, perde todo o
sentido; deixa de ser o foco ou o objetivo, pois começamos a perceber que
estávamos gastando tanta energia nesse jogo de ganha-perde, de
dominado-dominador, com resultados cada vez mais empobrecidos.
O jogo do ganha-ganha
passa a ser aquele em que cuido de mim, falando as verdades que estão mais
vivas dentro de mim, ao mesmo tempo em que confio que posso abrir espaço para
o(s) outro(s) também serem cuidados.
Aqui está a quebra de
paradigma... da forma mais concreta, visível e possível!
Até então havia uma
configuração dualista em que era fácil localizar um ganhador e um perdedor.
Para sentir alívio da pressão interna, despejo minhas verdades e o outro que
trate de ver o que faz com a bomba que explodiu no seu colo ou, de forma
contrária, engulo os incômodos para não
“machucar” o outro e gerar um novo incômodo, o famoso “deixa para lá”.
Sempre há alguém violentado e alguém violentador nesse modelo. Beco sem saída!
Ao abrir mão de ter
razão e tentar convencer os envolvidos na cena de quem está certo (eu) e quem
está errado (o outro, é claro) busco me conectar com o que está vivo ali.
Pesquiso os sentimentos que como a fumaça em uma fogueira anunciam que ali tem
fogo, ou seja, necessidades atendidas ou não atendidas.
Quando revelo que as necessidades
e a verdade que sinto dentro de mim não encontram espaço ou caminhos para se
expressarem, legitimo a vida e não há mais sentido em recorrer ao hábito
limitador de fazer avaliações, diagnósticos e julgamentos que tanto me afastam
do outro.
Parece um passe de
mágica como é possível sentir na frequência do batimento cardíaco, na pressão
arterial, na respiração. Uma calma e um alinhamento vão surgindo ao reconhecer
minha humanidade compartilhada com a humanidade do outro que tem necessidades
como as minhas.
Nessa abordagem,
nosso foco se dirige mais àquilo que nos liga aos outros, àquilo que é humano e
universal e, portanto, compartilhado com todos os seres humanos, do que com
aquilo que nos torna diferentes.
Cabe a nós agora nos
matricularmos na escola de educação emocional, pois há um “treino” necessário
já que parecemos tão distantes de “escutar” e poder expressar nossas
necessidades, e ainda tão longe de nos conectarmos com aquelas necessidades de
nossos interlocutores. Dessa forma, sentimentos de medo, raiva e tristeza
imperam nas relações. Fugimos dos conflitos, ou queremos acabar logo com eles,
por profunda incompetência relacional. Transcendemos esse padrão quando
aprendemos a apreciar o conflito como uma manifestação de que há vida querendo
ser renovada nas relações.
Não escutar com
empatia o outro pode ser violento, interromper enquanto o outro fala também.
Não valorizar suas necessidades e ceder para o desejo do grupo, pode também ser
uma autoviolentação, mesmo que a forma de se comunicar seja doce. Não se trata
da violência que se lê nos jornais, mas sim da ausência (ou carência) de
apreciação e gratidão que presenciamos na atmosfera empresarial, assim como na
familiar e de outros campos da vida.
“A solução de conflitos começa quando
são eliminados da linguagem julgamentos e acusações. Muitas vezes, nas chamadas
resoluções diplomáticas de conflitos, não são tratadas as fontes da agressão. A
raiz da violência, e não do conflito, está na expressão trágica de uma
necessidade humana não atendida.” (Dominic Barter)
Essa visão de mundo, que
chamamos de Conexões Sustentáveis é baseada na Comunicação Não-Violenta (CNV), pesquisa
contínua sistematizada pelo psicólogo norte-americano Marshall Rosenberg no início
dos anos 70. A CNV abala os alicerces que vêm sustentando (ainda que sem
sustentabilidade) há milênios nossa civilização. A lógica de punição existente
em quase todos os sistemas sociais, e visível nos ambientes organizacionais, é
colocada em cheque. O pressuposto que se eu punir alguém que cometeu um erro ou
violou uma regra, estarei assim ensinando a ele (e ao grupo) uma lição que vai
levá-lo a corrigir o seu comportamento, vem se mostrando ineficiente, já que a
corrupção corporativa, a depressão, o absenteísmo, a queda de engajamento e o
estresse só parecem aumentar.
A Comunicação
Não-Violenta mudou a minha forma de ver e estruturar o feedback que chamamos de
redirecionamento (o que outros chamam de “negativo”). Quantas vezes a pessoa
que recebe esse feedback sai da sala como se tivesse ficado de recuperação na
escola, com a sensação de que está errada e o “chefe” está certo. E o “chefe”
se enche da ilusão de que deu um feedback claro e que deve produzir o efeito
que ele deseja. Se em alguns meses não há a mudança esperada, está comprovado
que o subordinado é um incompetente mesmo. Será?
Se, como líder, sou
capaz de me vulnerabilizar e compartilhar poder, fortaleço a conexão entre meus
subordinados, clientes, pares e chefes e posso assim, cocriar com eles as bases
para mudanças consistentes e sustentáveis. Percebo que caso um desligamento ou
uma ruptura contratual ocorra no final desse processo, a qualidade da relação,
pelo fato de a pessoa ter sentido que tinha escolhas e que suas necessidades
foram ouvidas, irá sustentar a confiança e a gratidão, mesmo depois da saída.
A empatia é uma chave
importante nesse processo. Ao esvaziar a mente de julgamentos e OUVIR com toda
presença, atenção e abertura, para poder reconhecer as necessidades e sentimentos
do outro, surge a empatia. Não é preciso concordar, nem discordar quando o
objetivo é fortalecer a conexão.
“A empatia é a compreensão respeitosa
do que os outros estão vivendo.” Marshall
Rosenberg
Muitas das estruturas
corporativas estão organizadas de forma a produzir uma dinâmica que não promove
a parceria e a eficiência de comunicação. Vemos que as possibilidades, e aqui
estamos falando de escolhas, foram tiradas dos indivíduos, pela valorização de
uma visão de liderança que precisa orientar, comandar, controlar. No
corre-corre empresarial, há uma carência latente de tempo para fortalecer as
conexões, identificar o que cada pessoa está fazendo e sentindo, qual é seu
engajamento às tarefas, quais os contratos grupais, etc. O foco no resultado
vem matando o foco no processo e nas relações, e essa discussão parece tocar na
raiz da era de transformações que estamos vivendo -- querendo ou não.
A Comunicação
Não-Violenta serve para que a “autoresponsabilização” pelas escolhas e suas
consequências seja experimentada em sua plenitude. Como humanidade, assumimos a
responsabilidade pelas atitudes de exploração dos recursos naturais que nos
últimos séculos levou nosso planeta à situação de desequilíbrio que hoje se encontra.
Ainda que o vitimismo
tenha se enraizado há milênios, especialmente na cultura ocidental, urge a
necessidade de cada indivíduo assumir o papel de protagonista da cena de sua
vida e se responsabilizar pelas consequências de suas escolhas, “empoderando-se”.
Só assim, seremos capazes de empoderar os que nos cercam.
A sustentabilidade de
uma liderança, de alguém que escolheu trilhar um caminho de se destacar no
cuidado com pessoas, equipes e negócios me parece estar cada vez mais associada
à capacidade de se conectar empaticamente com sua complexa rede de
relacionamentos do que com sua brilhante inteligência analítica, técnica e
decisória. Essa inteligência já conhecemos e não a perderemos. Mas ela só não
está nos tornando mais felizes como pessoas, líderes, grupos, como civilização!
Quem surge agora é o
homo-empathicus, o homo-luminous ou homo-pacem. Quem sabe poderemos substituir
o lema cartesiano que vem nos definindo como espécie: “penso, logo existo” ,
por “escuto, sinto e conecto, logo existo”??
Fabiana
Bandeira Maia, 2012
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Entrevista com Marshall Rosenberg na coluna Gente da Revista Vida Simples (por Marcia Bindo)
A boa comunicação entre as pessoas é a arma mais eficaz para disseminar a paz. É o que diz o psicólogo Marshall Rosenberg, porta-voz mundial da comunicação não-violenta
por Marcia Bindo
Lembra a última vez que você discutiu com alguém, levantou a voz e saiu praguejando sem chegar a um entendimento? Pois saiba que guerras entre nações, brigas familiares, arranca-rabos no trabalho e a maior parte dos confl itos em todo o mundo (incluindo essa sua discussão) têm algo em comum: poderiam ser evitadas apenas com... palavras. Essa é a teoria defendida pelo psicólogo americano Marshall B. Rosenberg, que desde a década de 1960 se dedica a promover o diálogo pacífi co mundo afora. Segundo ele, é na maneira como falamos e ouvimos os outros que está a chave para o problema das desavenças e discórdias. Marshall fundou em 1984, na Califórnia, o Centro de Comunicação Não-Violenta (Center for Nonviolent Communication) e tem grupos de pesquisa em mais de 50 países, incluindo o Brasil. Viaja constantemente para mediar conflitos e levar programas de paz a regiões assoladas por guerras, como Sérvia e Croácia. Aqui ele conta a estratégia para apaziguar os combates verbais do nosso dia-a-dia.
Como você começou a se interessar pelo assunto?
Cresci em Detroit, uma das cidades mais violentas dos Estados Unidos. O tempo inteiro havia brigas de rua entre as comunidades brancas e negras, inflamadas pelo preconceito. Quando isso acontecia, me escondia no porão. Até que decidi fazer algo a respeito queria entender por que agimos de maneira violenta quando não nos entendemos. Comecei a estudar algumas maneiras de ajudar a contribuir para o bem-estar de todos. A comunicação não-violenta foi o resultado de minha especialização em psicologia social.
Quando acontece, então, a falta de comunicação?
Quando não há troca. Geralmente estamos tão preocupados com nosso ponto de vista que não escutamos o que os outros estão dizendo. Ou pior: quando julgamos aqueles que não agem de acordo com o que acreditamos ser correto. Se você quer viver no inferno, é só pensar no que há de errado com as pessoas que fazem coisas de que você não gosta. Se quer piorar um pouco mais, diga a eles o que você acha que está errado. Essa maneira cricri de se comunicar só gera raiva, medo, culpa.
O que podemos fazer para evitar tantos atritos?
Quando jovem, aprendi a me comunicar de maneira impessoal, que não exigia revelar o que se passava dentro de mim. Quando encontrava pessoas com comportamentos de que não gostava ou que não compreendia, reagia considerando que fossem errados. Aí ocorreu o clique. Entendi que a grande falha da comunicação está justamente em apontar problemas nos outros em vez de olhar o que eles causam em nós. A comunicação começa quando expressamos nossos sentimentos. Não fazemos isso porque achamos que ficamos vulneráveis. Mas só assim criamos um relacionamento baseado na sinceridade. A partir do momento que as pessoas falam o que precisam, em vez de falarem o que está errado com os outros, o entendimento aumenta.
E como isso acontece quando há um assunto que gera discórdia?
O primeiro passo é reformular a maneira como falamos e ouvimos o outro. A idéia é treinar sempre a se expressar com honestidade e clareza, ao mesmo tempo que damos aos outros uma atenção respeitosa. Mas temos a síndrome do disco riscado: repetimos reações, julgando os outros. Existe um treino que ensinamos a todos que buscam se comunicar de maneira pacífica do chefe de Estado à professora, do marido ao presidiário.
Como é esse treino?
Primeiro você observa um determinado acontecimento que afeta seu bem-estar, evitando julgamentos. Em seguida, identifi ca como você se sente ao observar aquela ação: se ficou magoado, assustado, alegre etc. Então reconhece quais são suas necessidades que não estão sendo supridas. A partir dessa refl exão é possível se comunicar com a pessoa ligada à ação, para resolver o conflito.
Você tem um exemplo?
Vamos supor que uma mãe vai falar com o filho adolescente que deixou a sala uma bagunça. Um jeito não-violento de se expressar poderia ser o seguinte: Roberto, quando vejo bolas de meia sujas na sala, fico irritada porque preciso de mais ordem no espaço que usamos em comum. Você poderia colocar as meias no seu quarto ou na lavadora? Veja bem, a mãe poderia reagir de diversas maneiras: bufar, punir o filho. Mas quando pratica a comunicação não-violenta ela deixa claro o que observa, como se sente, qual necessidade não está sendo atendida. Pode ter certeza de que a chance de ser compreendida é maior.
Falando assim parece fácil, mas na prática...
Esses passos na verdade funcionam para termos mais consciência antes de agir de maneira reativa e impensada. Experimente respirar fundo e dar um tempo antes de começar a falar em uma situação que está prestes a entrar em ebulição. Parece papo pra boi dormir, mas funciona! Assim você consegue elaborar o que o está incomodando.
Mas e quando a outra pessoa nos ataca verbalmente?
Da mesma maneira que é possível mudar o jeito de se expressar, também dá para escutar os outros de um jeito diferente. Todo tipo de crítica, ataque, insulto e julgamento desaparece quando concentramos a atenção em ouvir os sentimentos e necessidades por trás da mensagem. Quanto mais praticamos isso, mais percebemos que por trás de todas essas mensagens que nos intimidam estão simples indivíduos com necessidades insatisfeitas pedindo que contribuamos para seu bem-estar.
Como é o trabalho no Brasil?
Tenho uma equipe de pessoas habilitadas que trabalham para mediar conflitos em presídios, em morros do Rio de Janeiro, em empresas e até em ambientes familiares. A rede de comunicação não-violenta no Brasil é sustentada por doações. Educadores também realizam oficinas para qualquer pessoa que tenha interesse em aplicar esse aprendizado no cotidiano. O foco é sempre inspirar a compaixão por isso foi carinhosamente apelidada de linguagem do coração.
Para saber mais
Livros:
Comunicação Não-Violenta - Técnicas para Aprimorar Relacionamentos Pessoais e Profissionais, Marshall Rosenberg, Ágora
As bases espirituais da Comunicação Não-violenta
Uma sessão de perguntas e respostas com Marshall Rosenberg
1) A espiritualidade é
importante no processo da Comunicação Não-Violenta?
- Eu penso que é importante que as
pessoas vejam que espiritualidade é a base da Comunicação Não-Violenta e que
elas aprendam a mecânica do processo com
isso em mente. É realmente uma prática espiritual que estou tentando mostrar
como um caminho de vida. Mesmo que não mencionemos isso, as pessoas são seduzidas
pela prática. Mesmo se a pratiquem como uma técnica mecânica, elas começam a
experimentar coisas entre elas mesmas e as outras pessoas que não eram capazes
de experimentar antes. Então finalmente elas chegam à espiritualidade do
processo. Elas começam a ver que isso é mais que um processo de comunicação e
percebem que é realmente uma tentativa de manifestar uma certa espiritualidade.
Então eu tentei integrar a espiritualidade no treinamento num jeito que atende
à minha necessidade de não destruir a beleza dela através de abstrações
filosóficas.
2) O que Deus significa para você?
-
Eu preciso de um modo de pensar em Deus que funcione para mim, outras
palavras ou caminhos para olhar para essa beleza, essa poderosa energia, e
então meu nome para Deus é “Amada Energia Divina”. Por um tempo foi somente
Energia Divina, mas então eu estava lendo algo sobre as religiões orientais, e
poetas orientais, e eu amei como eles têm essa conexão pessoal amorosa com essa
Energia. E eu achei que aquilo me levava a chamar Deus “Amada Energia Divina” .
Para mim essa Amada Energia Divina é vida, conexão com a vida.
3) Qual é seu caminho
favorito de reconhecimento da Amada Energia Divina?
- É o jeito como eu me conecto com
seres humanos. Eu conheço a Amada Energia Divina conectando-me com os seres
humanos de certo modo. Eu não vejo a Energia Divina, eu saboreio a Energia
Divina, eu sinto a Energia Divina e EU SOU a Energia Divina. Estou conectado
com a Amada Energia Divina quando eu me conecto com os seres humanos de certo
modo. Então Deus está muito vivo para mim. Também falando com as árvores,
falando com os cachorros e porcos, estes são alguns dos meus caminhos
favoritos.
4) Como você desenvolveu a Comunicação
Não-Violenta?
-
A Comunicação Não-Violenta se desenvolveu a partir da minha tentativa de
ficar consciente do que é essa Energia Divina e como ficar conectado com ela.
Eu estava muito insatisfeito com a psicologia clínica porque é baseada na
patologia e eu não gostava dessa linguagem. Então, após ter me formado eu
decidi ir mais além na direção de Carl Rogers e Abraham Maslow. Eu decidi olhar
esse lado e perguntar a mim mesmo a assustadora pergunta: “O que nós somos e o
que pretendemos ser?” Eu achei que havia muito pouca coisa escrita sobre isso
em Psicologia. Então eu fiz um curso de Religiões Comparadas porque eu vi que
elas falavam mais sobre essa questão. E a palavra “amor” aparecia em cada uma
delas. Eu costumava ouvir a palavra AMOR
como muita gente usa no sentido religioso: “Você deve amar todo mundo”. Eu
ficava realmente abusado da palavra amor. “Oh sim, eu cogitaria de amar
Hitler?” Eu não conhecia as palavras “Bobagem da Nova Era” mas eu usava a que
era meu equivalente para elas. Eu tentava entender melhor o que significa amor
porque eu podia ver que tinha muitos significados para muitos milhões de
pessoas em todas aquelas religiões. O que é e como se faz esse ‘amor’?
A Comunicação Não-Violenta realmente se
revelou na minha tentativa de compreender esse conceito de amor e como
manifestá-lo, como fazê-lo. Eu cheguei à conclusão que não era somente alguma
coisa que você sente, mas é alguma coisa que manifestamos, alguma coisa que
fazemos, alguma coisa que temos. E o que é essa manifestação? É dar de nós mesmos de um certo jeito.
5) O que você quer dizer com
“dar de nós mesmos?”
- Para mim, dar de nós mesmos significa
uma expressão honesta do que está vivo em nós neste momento. Intriga-me por que
cada cultura saúda a outra “Como está você?” Essa é uma questão tão importante.
Que presente é ser capaz de saber a cada dado momento o que está vivo em
alguém.
Dar um presente a alguém é uma
manifestação de amor. É quando você revela a si mesmo nua e honestamente, em
dado momento, sem outro propósito senão como um presente do que está vivo em
você. Sem acusação, sem crítica ou punição. Simplesmente “Aqui estou e aqui
está o que eu gostaria”. Essa é a minha vulnerabilidade neste momento. Para
mim, isso é um jeito de manifestar amor.
E o outro jeito que nós nos damos é
através de como recebemos a mensagem da outra pessoa. Recebê-la com empatia,
conectando-nos com o que está vivo nela, não fazendo julgamentos. Somente ouvir
o que está vivo na outra pessoa e o que ela gostaria. Então, a Comunicação Não
Violenta é simplesmente a manifestação do que eu entendo que seja Amor.
6) A Comunicação Não-Violenta se revelou no
seu desejo de manifestar amor?
-
Eu também fui ajudado por pesquisa empírica em psicologia que definiu as
características de relacionamentos saudáveis e pelo estudo de pessoas que
estavam vivendo manifestações de amar pessoas. Fora esses recursos eu empurrei
junto esse processo que me ajudou a conectar-me com pessoas no qual eu pude
entendê-las de um jeito amoroso. E então eu vi o que aconteceu quando eu me
conectei com as pessoas desse jeito. Essa beleza, esse poder, me ligaram à
Energia que eu escolhi chamar de Amada Energia Divina. Assim, a Comunicação Não
Violenta me ajuda a ficar conectado com essa bela Energia Divina dentro de mim
mesmo, com a Energia Divina nos outros, e o que acontece então é o mais próximo
que eu conheço do que seja estar conectado com Deus.
7) Como você evita que o Ego interfira em
sua conexão com Deus?
- Vendo o Ego como a coisa mais
estreitamente ligada ao jeito que a minha cultura me treinou a pensar e me
treinou a comunicar-me. E como a cultura me treinou para atender às minhas
necessidades de certo modo, para ter minhas necessidades misturadas com certas
estratégias, eu devo atender às minhas necessidades. Então eu tento permanecer
cônscio desses três caminhos que a cultura me programou para fazer coisas que
realmente não são do meu maior interesse, para funcionar mais no Ego que na
minha conexão com a Energia Divina. Tenho tentado aprender meios de treinar a mim
mesmo para estar consciente quando estou pensando nesse jeito culturalmente
aprendido e tenho incorporado isso na Comunicação Não Violenta..
8) Então você acredita que a linguagem de
nossa cultura nos impede de conhecer nossa Energia Divina mais intimamente?
-
Oh, sim. Definitivamente. Eu acho que nossa linguagem torna isso
realmente difícil, especialmente a linguagem que nos é dada pelo treinamento
cultural que a maioria de nós segue, e as associações do que “Deus” cria para as pessoas. O pensamento julgador, ou do
certo/errado é uma das mais coisas mais difíceis que tenho encontrado para
conseguir ensinar Comunicação Não Violenta por todos esses anos. As pessoas com
quem trabalho têm vindo todas de escolas e igrejas e é muito fácil para elas,
se gostam da Comunicação Não Violenta, dizer que esse é o jeito ‘certo’ de se
comunicar. É muito fácil pensar que a Comunicação Não Violenta é o objetivo.
Eu modifiquei uma parábola budista
que se relaciona com essa questão. Imagine um local lindo, íntegro e sagrado. E
imagine que você poderia realmente conhecer Deus quando estivesse nesse lugar.
Mas há um rio entre você e esse lugar e você gostaria de alcançar esse lugar
mas você tem que transpor esse rio para chegar lá. Então você obtém uma balsa,
e essa balsa é uma verdadeira ‘mão na roda’ para levar você do outro lado do
rio. Uma vez cruzado o rio você pode caminhar o resto de muitas milhas para
esse lindo lugar. Mas a parábola budista termina dizendo que “aquele é um tolo
que continua carregando a balsa nas
costas no lugar sagrado”.
A comunicação Não Violenta é uma
ferramenta para me fazer superar meu aprendizado cultural de modo que eu possa
alcançar aquele lugar. Não é o lugar. Se ficamos apegados à balsa, fica mais
difícil chegar ao lugar. As pessoas que somente aprendem a processo de
Comunicação Não-Violenta podem esquecer tudo sobre paz. Se ficam muito presos à
balsa, o processo torna-se mecânico.
A Comunicação Não-Violenta é uma
das ferramentas mais poderosas que eu encontrei para conectar-me com pessoas
num modo que me ajuda a ficar num lugar onde estamos conectados com o Divino,
onde o que fazemos para o outro provém da Energia Divina. Esse é o lugar onde
eu quero estar.
9) Essa é a base espiritual da Comunicação
Não-Violenta?
- A base espiritual para mim é que eu estou
tentando conectar a Energia Divina em outros e conectá-los com a Energia Divina
em mim, porque eu acredito que quando estamos realmente conectados com essa
Divindade dentro de cada um e de nós mesmos, aquela pessoa desfruta
contribuindo para o bem estar de outro mais que qualquer outra coisa. Então
para mim, se estamos conectados com o Divino nos outros e em nós mesmos, vamos
aproveitar o que acontece, e essa é a base espiritual. Ness lugar é impossível
haver violência.
10) É essa falta de conexão com a Energia Divina
a responsável pela violência no mundo?
-
Eu gostaria de dizer desse jeito: Eu penso que temos tido a graça de
escolher criar o mundo da nossa escolha. E temos toda essa graça desse grande e
abundante mundo para criar um mundo de alegria e abundância. Para mim, a
violência no mundo ocorre quando ficamos alienados ou desconectados dessa
Energia. Como ficarmos conectados se somos educados para sermos desconectados?
Eu creio que é nosso condicionamento cultural e educação que nos desconectam de
Deus, especialmente nossa educação sobre Deus.
Walter Wink escreve sobre como as
culturas de dominação usam certos ensinamentos sobre Deus para manter a
opressão. Eis porque Bispos e Reis têm estado geralmente muito próximos. Os
Reis precisaram dos Bispos para justificar a opressão, para interpretar os
livros sagrados de modo que justificassem as punições, dominação e assim por
diante.
11) Como vamos superar esse condicionamento?
-
Eu estou geralmente em meio a pessoas com muita dor. Eu relembro de
estar trabalhando com vinte Sérvios e vinte Croatas. Algumas dessas pessoas
tiveram membros de suas famílias mortos pelos do outro lado e todos eles tinham
gerações de veneno inoculado em suas cabeças acerca do outro lado. Eles
gastaram três dias expressando sua raiva e dor uns aos outros. Felizmente nós
dispúnhamos de cerca de sete dias.
Uma palavra que não tenho usado
quando falo sobre isso é a palavra ‘inevitabilidade’. Então muitas vezes tenho
visto que não importa o que tenha acontecido, se as pessoas se conectam de
certo modo, é inevitável que eles terminem gostando de se doar uns aos outros.
É inevitável. Para o meu trabalho é quase como assistir a um show de mágica. É
muito lindo para caber em palavras.
Mas algumas vezes essa Energia
Divina não funciona tão rápido quanto eu acho que deveria. Eu lembro de ter
sentado ali, em meio a toda aquela raiva e dor pensando “Energia Divina, se
podes sanar toda essa confusão por que estás demorando tanto, por que estás
colocando essas pessoas nisso?” E a Energia Divina me falou, e disse: “Você faz
somente o que quer para se conectar. Ponha sua energia nisso. Conecte-se e
ajude às outras pessoas a se conectarem e deixe-me cuidar do resto”. Mas apesar
do que estava acontecendo em uma parte do meu cérebro, eu sabia que a alegria
era inevitável. Se pudéssemos somente nos manter conectados com nossa própria
Energia Divina e com as dos outros.
E aconteceu. Aconteceu com grande
beleza. No último dia todos eles estava conversando sobre alegria. E muitos
deles disseram: “Eu pensava que nunca mais me sentiria alegre de novo depois do
que passamos”. Esse era o tema em todos os lábios. De modo que aquela noite
vinte Sérvios e vinte Croatas, que sete dias antes tinham somente uma dor
inimaginável em relação ao outro, celebravam a alegria de viverem juntos.
12) Nós conseguimos essa conexão com o outro
conhecendo a Deus?
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Aqui eu quero ficar longe de intelectualizar sobre Deus. Se ‘conhecer
Deus’ significa essa íntima conexão com a Amada Energia Divina, então nós
ganhamos cada segundo quando experimentamos o paraíso.
O céu que eu ganho conhecendo a
Deus é essa inevitabilidade, saber o inevitável, que não importa o que o
inferno está fazendo, se temos esse nível de conexão uns com os outros,s e
somos tocados pela Energia Divina uns dos outros, é inevitável que apreciemos
dar e receber da vida. Tenho tido esse tipo de coisa tão completamente com as
pessoas que não fico preocupado com nada mais. É inevitável. Se conseguimos
essa qualidade de conexão, estaremos onde nos agrada.
Encanta-me quão efetivo isso é. Eu
poderia lhes falar de exemplos semelhantes entre os extremistas israelenses,
tanto política como religiosamente, e o mesmo do lado palestino, e entre os Hutus
e Tutsis, e os Cristãos na Nigéria. Com todos eles espantou-me como é fácil é
promover essa reconciliação e cura. Uma vez mais, tudo o que nós temos que
fazer é conectar ambos os lados às necessidades do outro. Para mim as
necessidades são o meio mais rápido e íntimo de fazer conexão com a Energia
Divina. Todo mundo tem as mesmas necessidades. As necessidades existem porque
estamos vivos.
13) Como você faz inimigos reconhecerem que eles
precisam se dar um ao outro?
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Quando você faz as pessoas se conectarem nesse nível é difícil manter
aquela imagem de ‘inimigo’. A Comunicação Não-Violenta em sua pureza é o meio
mais poderoso e rápido que eu encontrei para fazer as pessoas irem do jeito
alienado de pensar onde elas querem ferir uns aos outros, para desfrutarem de
se darem uns aos outros.
Quando você tem duas pessoas em
frente um do outro, Hutu e Tutsi, e suas famílias foram mortas pelo outro, é
espantoso que em duas ou três horas possamos levá-los a nutrirem um ao outro. É
inevitável. Inevitável. Eis por que eu uso essa abordagem.
Encanta-me quão simples isso é dada
a quantidade de sofrimento que houve, e quão rapidamente isso pode acontecer. A
Comunicação Não Violenta realmente sara rapidamente quando as pessoas
experimentaram muita dor. Isso me motiva a fazer isso acontecer mais
rapidamente porque o jeito que estamos fazendo isso agora toma um bom tempo.
Como ter isso feito mais
rapidamente com os outros 800.000 Hutus e Tutsis, e o resto do planeta? Eu
gostaria de explorar o que poderia acontecer se pudéssemos fazer filmes ou
programas de televisão sobre esse processo, porque tenho visto que enquanto
duas pessoas seguem o processo com outras pessoas olhando, acontece
aprendizagem indireta, cura e reconciliações. Então eu gostaria de explorar meios
para usar a mídia para criar massas de pessoas para rapidamente completarem o
processo juntas.
14) Você tem encontrado algumas barreiras
culturas ou linguísticas nesse processo?
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Espanta-me quão poucas e pequenas elas são. Quando eu comecei a ensinar
esse processo em outra língua, eu realmente duvidei de que pudesse ser feito.
Lembro-me da primeira vez, eu estava na Europa, estava indo pela primeira vez a
Munique e a Genebra. Minha colega e eu duvidávamos que pudéssemos fazê-lo em
outra língua. Ela estava indo fazê-lo em francês e eu estaria lá para que ela
me fizesse perguntas se alguma coisa acontecesse. Eu estava indo para pelo
menos tentar ver se poderíamos fazê-lo com tradutores. Mas tudo funcionou muito
bem, sem nenhum problema, e eu acho que a mesma coisa ocorrerá em qualquer
lugar. Então eu simplesmente não me preocupo com isso, eu faço em inglês e você
traduz e funciona bem. Não me lembro de nenhuma cultura onde eu tenha tido mais
que pequenos problemas, mas não com a essência em si mesma. Não somente não
tivemos problema mas também aconteceu de repetidas e variadas pessoas dizerem
que isso é o que essencialmente suas religiões lhes dizem. É coisa antiga, eles
a conhecem, e são gratos por essa manifestação, mas não é nada novo.
15) Você acredita que uma prática espiritual é
importante para praticar a não-violência?
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Eu recomendo em todos os workshops que as pessoas dediquem um tempo e se
façam essa pergunta: “Como posso
escolher me conectar com outros seres
humanos?” e para estarem tão conscientes quanto possam sobre isso. Para se
assegurarem que é sua escolha e não o caminho para o qual tem sido programados
a escolher. Finalmente, qual é o caminho que você escolheria para conectar-se
com outros seres humanos?
A gratidão também tem importante
papel para mim. Se eu expresso gratidão quando estou consciente da ação humana
para a qual eu quero expressar gratidão, a consciência de como me sinto quando
a ação ocorre, se é uma ação minha ou de outra pessoa, e quais necessidades
minhas ela preenche, então expressar gratidão me enche da consciência do poder
que nós seres humanos temos para preencher nossas vidas. Faz-me consciente de
que nós somos Energia Divina, que nós temos tal poder para fazer a vida
maravilhosa, e que não há nada que gostemos mais do que fazê-lo.
Para mim essa é uma poderosa
evidência de nossa Energia Divina, que nós temos esse poder para fazer a vida
tão maravilhosa e que não há nada de que gostemos mais. É por isso que parte de
minha prática espiritual é justamente estar cônscio da gratidão.
16) Quão básica é essa necessidade de dar de si ao outro?
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Eu penso que a necessidade de enriquecer a vida é uma das mais básicas e
poderosas necessidades que nós todos temos. Agora, um outro meio de dizer isso
é que nós necessitamos agir a partir da Energia Divina dentro de nós. E eu acho
que quando nós ‘somos’ essa Energia Divina –
não há nada de que gostemos mais, nada em que encontremos mais alegria,
que enriquecer a vida, que usar nosso imenso poder para enriquecer a vida.
Mas quando nós estamos tentando
atender essa necessidade nossa para ‘viver’ essa Energia Divina, tentando
contribuir para a vida, há um pedido que vem com ela. Nós pedimos pelo retorno
de qualquer criatura cuja vida estejamos tentando melhorar. Nós queremos saber
de fato “ Minha intenção e minha ação estão sendo correspondidas” Houve
preenchimento?
Na nossa cultura onde pedidos são
distorcidos em nosso pensamento de que temos a necessidade de que outra pessoa
nos ame pelo que temos feito, aprecie o que temos feito, nos aprove pelo que
temos feito. E isso distorce e embota a beleza do processo inteiro. Não é sua
aprovação o que precisamos, nossa verdadeira intenção era usar nossa energia
para enriquecer a vida. Mas precisamos de retorno. Como vou saber se meus
esforços foram bem sucedidos sem ter nenhum retorno?
E eu posso usar esse retorno para
me ajudar a saber se eu estou me afastando da Energia Divina. Eu sei que estou
me afastando da Energia Divina quando eu valorizo a crítica mais que o
agradecimento.

